Wednesday, July 02, 2014

O futebol e o carácter nacional

Um mundial de futebol é um grande momento. Cada quatro anos, o que dá só dois por década (daqui a dois mundiais tenho mais de 50 anos). O primeiro de que me lembro é o de Espanha 82, com o Brasil de sonho, todos em casa a ver os jogos do Brasil, e uma tarde em casa do Fernando Pinto, numa altura em que os miúdos podiam ir de um lado ao outro sem os pais os carregarem permanente ao colo. O Bagio a falhar o penalty na final dos Estados Unidos, TV no corredor da Associação Académica, um jogo em que a empregada do bar, três andares em baixo, picada desde há muito com os habituais, cortou a TV no meio dos penalties. (“Eu já tinha dito há vários minutos que ia desligar a TV”). O jogo Portugal-US na Coreia, visto em Londres, em trânsito para uma magnífica viagem ao Mali/Moçambique/US. Muitos jogadores, muitos jogos magníficos, muitos países novos, muita coisa aprendida.

Esta copa, como todas, trás muitas coisas novas. Tecnologia nova, com muito melhor imagem, muito mais nitidez, gravações que permitem facilmente ver jogos em diferidos (implicando um esforço enorme para não saber os resultados), excelentes comentadores na BBC e não tão excelentes na RTE. Uma copa num país que tem tudo para ser feliz e que se complica a vida, inventa problemas para si e para os outros (e que perdeu uma oportunidade de dar um pontapé na imagem única de samba/sexo/pobreza/favela).

E os jogos, os países, as características diferentes. Tão fácil, e tantas vezes errado atribuir características nacionais ao modo como cada equipa joga. E no entanto, não é fácil sair da facilidade equipa=caráter nacional com esta equipa americana tão honesta, tão interessada em jogar o jogo, sem faltas, sem protestos espalhafatosos. Limitada nas suas qualidades técnicas, e no entanto, sempre para a frente, a atacar com muita gente, a recuperar em esforço coletivo permanente de superação. Corajem, bravura, sem medos, sem receios, sem complexos, sem desculpas. Perdeu 2-1 com a Bélgica (uma das melhores equipas, cheia de jogadores nos melhores clubes do mundo, e a minha favorita a ganhar o campeonato), num jogo épico, a juntar às minhas memórias dos mundias.

Caráter nacional numa equipa brasileira cheia de dramas, coraçõezinhos em campo, lágrimas antes de momentos decisivos, psicólogos para tratar da psique, jogadores fabulosos, misturados com a mediocridade mais exasperante, pronta a ser campeã do mundo ou a ser eliminada nos quartos.

E já que falamos da validade das características nacionais, refletidas no campo, que concluir do português Fernando Santos, expulso pelo árbitro farto de mais de 40 minutos de protestos contínuos (quando tinha sido imensamente beneficiado — um penalty perdoado, e a Costa Rica com menos um jogador por dois cartões completamente exagerados).

E a nossa seleção nacional, com cabeçadas, queixas do árbitro, da humidade, da preparação, de... e de... À espera do milagre do messias, mesmo que o messias esteja em más condições, e numa análise realista (mesmo que distante), incapaz de dar o seu melhor. Com jogadores incapazes de se aguentar fisicamente em campo, mas leais ao chefe. Que foi incapaz de dizer: venham os melhores, que estes, apesar de meus amigos, não servem.

Errado atribuir características nacionais às equipas de futebol da copa do mundo. Mas quando resulta, é estilitiscamente muito poderoso.

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